O mercado de depilação a laser no Brasil vive uma transformação silenciosa, mas profunda. Se, por um lado, a narrativa recente expôs os dilemas da Espaçolaser — uma das maiores companhias do setor — com margens pressionadas, integração de franquias recompradas e reflexos da alta de juros no consumo, por outro, é preciso observar o outro lado da mesma moeda: o segmento segue crescendo, amadurecendo e atraindo investidores, mesmo em meio à turbulência.
A Espaçolaser, desde o IPO em 2021, colocou em prática um plano ousado: ampliar escala, margens e presença nacional por meio da abertura de lojas próprias e, principalmente, da recompra de franquias estratégicas. Foi um movimento natural de consolidação, comum em mercados que buscam liderança e padronização da experiência do cliente. A consequência imediata foi um aumento no nível de alavancagem e, posteriormente, um choque de realidade com a elevação dos juros, retração de consumo e entrada de novos concorrentes.
Esse enredo, no entanto, não conta tudo. O setor de estética e depilação a laser no Brasil cresce a taxas superiores à média da economia. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o mercado de beleza e estética movimenta mais de R$ 120 bilhões por ano, e serviços de depilação a laser estão entre os que mais se expandem, puxados por fatores como acessibilidade tecnológica, aumento da renda per capita e mudança de comportamento de consumo — especialmente entre mulheres jovens e homens que passaram a incorporar o cuidado estético como rotina.
Os dados que a empresa mostra
A Espaçolaser soube capturar parte desse movimento. No primeiro semestre de 2025, atingiu margem EBITDA de 26% — patamar equivalente ao período pré-IPO — e reduziu sua alavancagem para 1,97x. Isso não é trivial em um cenário de retração do varejo e mostra disciplina financeira, eficiência e adaptação. Com valor de mercado acima de R$ 400 milhões, a companhia sinaliza que não apenas sobreviveu ao vendaval, mas que começa a surfar uma nova onda de crescimento sustentável, apoiada no modelo asset-light, baseado em franquias.
Os números reforçam esse diagnóstico. No 1º trimestre de 2025, a empresa registrou lucro líquido ajustado de R$ 22,9 milhões (+72,8%), receita líquida de R$ 289,7 milhões (+5,4%), e EBITDA de R$ 80,2 milhões (margem de 27,7%), com alavancagem em 2,06× — o menor nível em 12 trimestres (UOL Economia, InfoMoney). Já no 2º trimestre, os resultados confirmaram a virada: lucro de R$ 8,8 milhões (+82,3%), receita de R$ 266,9 milhões (+7,2%), EBITDA de R$ 64,6 milhões (margem de 24,2%) e alavancagem recorde baixa de 1,97× (UOL Economia, Investidor10, Visno Invest).
Em outras palavras, a companhia conseguiu mostrar que está no caminho da recuperação. No começo de 2025, ela teve um lucro bem maior do que no ano anterior, aumentou suas vendas e ainda reduziu bastante as dívidas em relação ao que ganha. Já no segundo trimestre, mesmo com números um pouco menores que os primeiros meses, a empresa manteve o crescimento das vendas, aumentou o lucro e continuou controlando as dívidas, atingindo o menor nível em três anos.
Redução de despesas é o foco para respirar com tranquilidade nesse mundo financeiro
A liderança da companhia faz questão de dar o tom. Para a CEO Magali Leite, “a redução da alavancagem é um marco para nós”, e os investimentos em tecnologia, experiência do cliente e inovação se tornaram diferenciais que separam a Espaçolaser dos concorrentes que apenas imitam o modelo sem oferecer valor agregado (IstoÉ Dinheiro, Veja). Já o CFO Fábio Itikawa destaca um ponto crucial para o investidor: “O preço da ação não reflete o potencial da companhia” — reforçando o foco em caixa forte, controle de custos e desalavancagem contínua (Money Times).
Vale destacar que a estratégia de franquias se mostra acertada não só para a Espaçolaser, mas para todo o setor. O formato permite expansão rápida, compartilhamento de riscos e margens mais equilibradas, além de atrair empreendedores que buscam investir em negócios validados. Enquanto algumas redes menores ainda lutam para conquistar escala, a líder de mercado ajusta sua operação para voltar a crescer com rentabilidade.
O que se desenha, portanto, é um cenário menos sobre crise e mais sobre maturidade. O IPO, a recomposição financeira e a reorganização do portfólio foram passos dolorosos, mas necessários. A provocação que fica é: se uma empresa do porte da Espaçolaser passou por turbulências ao tentar consolidar um mercado em expansão, o que esperar de concorrentes menores que ainda precisam enfrentar as mesmas condições macroeconômicas e regulatórias, mas sem a mesma musculatura financeira?
Organização como pilar de fortalecimento e crescimento
Não se trata apenas de sobreviver, mas de reorganizar, aprender e voltar a crescer com rentabilidade. A iniciativa de recomprar franquias e consolidar operações, mesmo sob pressão econômica, criou o espaço necessário para estruturar o negócio num modelo asset-light, eficiente, com governança forte e capilaridade nacional. Resultado? Margens elevadas, alavancagem sob controle e crescimento sustentável — além do fortalecimento da comunicação com investidores e do posicionamento estratégico para aumentar valor.
Toda empresa, em qualquer mercado, carrega diferentes pontos de análise. Olhar apenas para as dificuldades seria simplificar demais um cenário complexo; enxergar apenas os resultados positivos seria ingênuo. O equilíbrio está em observar os dois lados da moeda, porque é justamente aí que está o aprendizado. Para o empreendedor, a lição é clara: decisões assertivas só podem ser tomadas quando se compreende o todo — os riscos, os desafios e também as oportunidades.
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